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22 de Maio de 2018

15 de março de 2015, dia da mentira

João Lopes
Publicado por João Lopes
há 3 anos

Por: Eduardo Nunomura

Com 23 anos de repórter, jamais havia me defrontado com uma situação como essa. Como escrever um texto no qual meus 12 entrevistados mentiram? Poderia expô-los, relatando as mentiras, depois as incoerências e desinformações e, também, as verdades que me disseram. Mas sempre adotei como norma de repórter ignorar o depoimento de um personagem que tentava me enganar.

O 15 de março de 2015 foi histórico, mas forjado na mentira. Ou em meias verdades, se preferir. Histórico porque pela primeira vez desde a redemocratização a elite paulistana saiu em massa para protestar nas ruas. Já o “histórico”, para os manifestantes, tinha outros sentidos: vociferar palavrões contra a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, culpar o PT por todos os problemas do Brasil, inclusive o 11 de setembro (nos Estados Unidos), chamar de “bundão” o prefeito paulistano Fernando Haddad, exigir intervenção militar, entre outros protestos difusos.

15 de maro de 2015 dia da mentira

Manifestante segura cartaz contra PT e Haddad – Fotos Eduardo Nunomura

A primeira das minhas entrevistadas foi uma muher de 43 anos, comerciante da rua Augusta que vestia uma calça justa amarela e uma camisa azul de seda. Tinha joias que chamavam a atenção, mas podiam ser bijuterias. Dizia que só decidiu ir até a avenida Paulista depois que viu, na GloboNews, que o ato era pacífico. Sentiu-se feliz em ver que lá só havia “pessoas bonitas e honestas, trabalhadoras, e não um monte de vagabundos que podem protestar na sexta-feira”. Vou anotando tudo. Quando pergunto o que gostaria que acontecesse no país após essa manifestação, ela responde: “Que o Brasil fosse um país sem diferenças sociais.”

Talvez não fosse exatamente uma mentira, mas a última frase dessa personagem me soou deslocada. Insisti com uma outra pergunta, mas ela voltou a chamar os apoiadores de Dilma, que na sexta-feira estiveram na mesma avenida Paulista para apoiar a presidenta, de “vagabundos”. Agradeci e risquei o nome dela – desde meus tempos de Folha de São Paulo, Veja e O Estado de São Paulo costumo fazer isso quando sinto que o personagem não diz a verdade.

Ao contrário do que fiz na sexta-feira, decido não expor os nomes dos meus 12 personagens. De que adiantaria? Isso é o que costumam fazer os jornalistas que se escudam no mantra “liberdade de imprensa” para acabar com reputações alheias. Antes de falar em liberdade deveríamos nós, profissionais da comunicação, pensar no nosso dever de informar a verdade. E o que vi, antes mesmo de sair às ruas, é que a “verdade” já estava sendo fabricada no noticiário televisivo.

A cobertura da TV e do rádio pela manhã é convocatória (leia aqui um relato sobre isso). Na rádio BandNews FM, o próprio locutor se espanta quando atualiza os números de participantes e afirma que saltara de 9 mil para 200 mil pessoas na avenida Paulista. O jornalista apenas reproduzia os dados da Polícia Militar de São Paulo, subordinada ao governador tucano Geraldo Alckmin, que depois de anunciar mais de 1 milhão de pessoas foi desmentida pelos 240 mil manifestantes aferidos pelo instituto Datafolha.

15 de maro de 2015 dia da mentira

Foto #JornalistasLivres

O Hino Nacional é tocado mais uma vez na Paulista. Nos primeiros 30 minutos de apuração jornalística, é a quarta vez que eu o ouço – desisto de fazer essa contagem. Encontro uma mulher de 27 anos, que logo se identifica como “médica do SUS”. Ergue cartazes com dizeres como “Fora corruPTos” e “Dilma, vai tomar no cu”. Trabalha no Hospital do Tatuapé. Mas no meio da entrevista afirma que vai fechar a clínica particular, na Vila Nova Conceição, porque a presidente está acabando com a medicina privada. Os convênios estão pagando muito pouco…

Dou mais uma chance à personagem. Ela explica que não adianta pedir o impeachment de Dilma, porque tem de tirar “todos os políticos que o PT colocou no Congresso”. Afirma que o Brasil só irá para frente quando a sociedade investir em valores éticos, assim como tornar prioridades a educação e a saúde. Tem o rosto pintado de verdeeamarelo. Pergunto se é uma referência à época de Fernando Collor, o presidente deposto em 1992. “Claro, eu estava lá e erguia cartazes pedindo o PT no poder.” Confirmo a idade dela, 27 anos. Ela teria, portanto, apenas 4 anos de idade. Talvez estivesse acompanhando os pais, como tantas milhares de crianças estiveram neste domingo. “Não, eu estava lá, sim. Eu me lembro de tudo. O Collor não foi em 1992.”

Na esquina da Paulista com a alameda Campinas, um caminhão de som anuncia a chegada do jogador de futebol Ronaldo. Um dia antes, ele conclamava os brasileiros a protestarem nas ruas, via Twitter: “Este domingo vamos todos pra rua mudar o Brasil! #movimentobrasillivre.” O locutor avisa que o pentacampeão mundial de futebol joga muito, mas fala pouco. Eis uma verdade:

Estamos cansados. Estamos cansados de tanta corrupção, de tanta impunidade. Nós temos que mudar o Brasil, gente. Muda Brasil!

O locutor socorre o jogador e lembra que Ronaldo é eleitor de Aécio Neves. A multidão vai ao delírio. Um engenheiro usa uma camiseta em que diz “A culpa não é minha, eu votei no Aécio”, a mesma que o atleta veste. Ele afirma que foi ao protesto por estar cansado de notícias de corrupção, inflação e desemprego. Afirma não defender o impeachment de Dilma, que o problema é a falta de credibilidade das instituições e que só uma reforma política seria a solução. Pergunto se é correta a estratégia do governo de querer caracterizar essa manifestação como sendo uma espécie de terceiro turno, composta em sua maioria de eleitores do senador tucano. “Não, eu nem votei nele.” E a camiseta? “Ganhei de um cara que estava passando.” Verdade?

Poderia prosseguir nessa narrativa, mas as mentiras não merecem mais espaço. Pode ter sido apenas uma gigantesca falta de sorte. Um dia ruim. Uma conspiração contra alguém que, politicamente, não se identifica com o teor dos protestos. Ou outro motivo que não consigo enxergar agora.

Como repórter, vi brasileiros revoltados contra a presidenta Dilma e se sentindo felizes por botar para fora, ao lado de tantas pessoas com pensamentos semelhantes, todos os impropérios possíveis contra ela e contra o ex-presidente Lula. É como se os uniformizados de camisetas da seleção tivessem feito do 15 de março de 2015 uma desforra da derrota de 7 a 1 contra a Alemanha, no dia 8 de julho de 2014 – será que havia alguma placa culpando Dilma pelos 7 a 1?

Há, sim, pessoas de todas as classes sociais, embora seja visível a presença maciça da elite branca. É excepcional que os ricos tenham saído às ruas para participar de um ato público e não tenham criado camarotes VIPs para evitar se misturar com os manifestantes pobres. Ao mesmo tempo, é triste que tenham dado uma aula de mau comportamento a tantas crianças presentes ao protesto, com xingamentos dos mais variados tipos. Mas a cena que não sai da minha cabeça é o selfie de uma família que leva uma babá para o protesto. Eis uma mentira de que o Brasil-Colônia que prega menos corrupção e justiça social jamais se libertará.

15 de maro de 2015 dia da mentira

Babá chama atenção de criança para que pai possa fazer selfie da família

http://farofafa.cartacapital.com.br/2015/03/16/15-de-marco-de-2015-dia-da-mentira/

#JornalistasLivres em defesa da democracia: cobertura colaborativa; textos e fotos podem ser reproduzidos, desde de que citada a fonte e a autoria. Mais textos e fotos em facebook. Com/jornalistaslivres.

8 Comentários

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Caro amigo João Lopes, no texto em que você publicou fica claro uma posição parcial e tendenciosas em relação as questões políticas no Brasil.
E o que me causa estranheza é o fato do texto contestar a classe média participando dos protestos do dia 15. No texto existe até uma foto criticando uma família, supostamente de classe média privilegiada, que traz uma babá para auxilia-lós.Fiquei me perguntando, qual é o problema da classe média, por mais que ela tenha recursos, protestar contra a grande corrupção que assusta e envergonha todos os brasileiros? Qual o problema a população de classe média não suportar mais a grande carga tributária que pesa aos ombros de toda população?Qual o problema da classe média não aceitar calada o custo de energia e gasolina no país?
Poderia utilizar a palavra 'qual' por outras inúmeras vezes, contudo creio que já foi possível perceber que há diversos motivos para a classe média, e todas as outras não se aquetarem aos problemas que ocorrem no país.
Por fim, creio que ao invés de dia da mentira, deveríamos utilizar a expressão governo da mentira, que entrou no poder sob a premissa de promover justiça social, mas na verdade apenas distribuiu bolsas e criou programas assistencialista, quando na verdade deveria ter oferecido condições substanciais para a população desfavorecida ascender socioeconomicamente. continuar lendo

Prezado amigo João Paulo, não creio que a intenção do artigo seja questionar a insatisfação do brasileiro com o governo e a forma de governar, e concordo com a maioria dos pontos levantados.
E a estranheza percebida no artigo são as "mentiras" levantadas através de informações obtidas com os entrevistados, como no caso da médica, que primeiramente parece se preocupar com a classe e depois se revela preocupada com a própria clínica. Ela tem o direito sim de se preocupar com a empresa e de protestar por seus interesses, mesmo que eles sejam pessoais.
E a foto da família tirando uma foto, parece mais com um troféu e não aparenta ser um protesta. Não um protesto da forma convencional, onde ser tem uma afirmação solene e categórica. Talvez seja uma nova forma de protesto, afinal as coisas mudam e evoluem. continuar lendo

Desculpem me mas os amigos estao equivocados. O povo nao sabe por que vai a rua? Isso beira a utopia em achar que os milhares de brasileiros nao sabiam o que estavam fazendo la, mudanças no governo do pais, houveram excessos sim com certeza mas o grito soava como uma voz apenas e que ninguem se engane nao vai acabar nem tampouco virar pizza, O povo unido jamais sera vencido continuar lendo

Uma situação ridícula, muitos vão as ruas manifestar suas vontades, muitos nem sabem o que estão manifestando. O que assusta é o ódio pela presidente sendo disseminado de tal forma que impera o desrespeito e a ignorância. . continuar lendo

Pelos céus, como alguém consegue espumar por escrito? E como o teclado funcionou até o fim? Teve ajuda dos enfermeiros para publicar esse acesso? Esse é caso de hidrofobia notável... continuar lendo